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Femupe debate a música como ciência ancestral e instrumento de resistência

Quarta edição Encontro Afro-brasileiro do Velho Chico reuniu representantes de Moçambique e do Nordeste brasileiro em um debate sobre ancestralidade e saberes musicais

Sandra Peixoto – jornalista / fotos Renner Boldrino

24 de outubro de 2026

A programação acadêmica da 18ª edição do Festival de Música de Penedo (Femupe) teve destaque no segundo dia do evento com o 4ºEncontro Afro-brasileiro do Velho Chico, trazendo entre suas rodas de conversa o debate sobre a Etnomusicalidade Pedagógica entre a África e o Brasil, que reuniu a professora moçambicana Sônia André, o mestre percussionista alagoano Wilson Santos e o pesquisador e educador pernambucano Edmilton Hora.

 

O encontro instigou a reflexão entre os participantes, pois, no ponto comum, os convidados questionaram os critérios que definem o conhecimento e a importância de reconhecer os povos tradicionais como protagonistas de suas próprias histórias.

Cantando uma música em sua língua nativa, a professora Sônia André provocou o público a questionar o porquê de as expressões musicais dos povos negros e originários serem designadas pelo prefixo ‘etno’. “Esse lugar da etnomicidade é um lugar que temos que reivindicar e nos redeclarar. Nós fazemos música, uma ciência ancestral. Quando se reduz ao etno, coloca-se em um lugar de não-pensante: é dos povos não brancos e não embranquecidos, como se não tivesse estrutura, como se não tivesse conhecimento, como se não tivesse sistematização”, ponderou.

 

A reflexão foi reforçada pelo mestre Wilson Santos, que compartilhou sua experiência na comunidade quilombola de Santa Luzia do Norte, em Alagoas, onde nasceu. Ao destacar que aprendeu com os mais velhos e com a vivência comunitária, o percussionista destacou a importância do conhecimento ancestral e a valorização que deve ser dada. “A fala da Sônia é muito pertinente, de a gente falar sobre a nossa o nosso fazer cultural, musical e social, porque somos nós falando de nós, né? Esse espaço de fala é muito recente e ele é fruto de muita luta. Desde sempre eu tenho dito que o que a gente faz é tecnologia ancestral, sim. É ciência que muitas vezes não é compreendida, principalmente pela academia”, afirmou.

 

O percussionista acrescentou que participa de um grupo de pesquisa na Universidade Federal da Bahia (UFBA) como professor visitante por Notório Saber e lá vem atuando exatamente na área de etnomusicologia negra. “Até para fortalecer a luta. Até recentemente a etnomusicologia no Brasil era pautada apenas por pessoas brancas, ou seja, pessoas brancas falando sobre musicalidade e corpos e vivências negras e indígenas. Então, esse grupo que atua na UFBA está justamente na perspectiva de romper com essa violência histórica”, disse.

 

Reforçando o debate, o pesquisador, educador e autor do livro Da África ao Frevo, Edmilton Hora, destacou a importância de recontar a história da música brasileira a partir das contribuições africanas e afro-brasileiras, mas reconheceu o desafio de abordar essas tradições nas escolas diante de preconceitos que ainda cercam manifestações culturais e religiosas de matriz africana. “A gente tem que lembrar sempre que a gente precisa resgatar a história do povo e toda a cultura, porque quando a gente fala de religiosidade, muitas vezes há aversão pelo fato de historicamente a cultura negra sido demonizada e não ter sido devidamente respeitada”, observou.

 

Além desta roda de conversa, outras duas compuseram a programação: ‘A cultura amazônica e a nordestina: fusões e influências, com o professor Alvatir Carolino Silva (AM), a professora Maria Eugênia Milet (BA), o compositor Fred Goes (AM) e o mediador professor Dos Anjos (AL); e ‘Alagoas e a Cultura Popular’, com o mestre Nildo Verdelinho (AL), o mestre Rodrigo Arapuã (AL) e o mestre Sapopemba (AL/SP).

 

O Femupe

 

O Festival de Música de Penedo (Femupe) é uma realização da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), executado por meio do Centro de Musicologia de Penedo (Cemupe) e da Pró-reitoria de Extensão e Cultura (Proexc).

 

O evento é fruto da união institucional com o Sesc Alagoas, Prefeitura de Penedo, Banco do Nordeste, Instituto do Meio Ambiente de Alagoas (IMA), Associação dos Empresários e Empreendedores do Turismo e da Economia Criativa de Penedo (Astec), Sebrae Alagoas, Sociedade Montepio dos Artistas de Penedo e outros parceiros.

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